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Viver é muito mais que trabalhar

  • Foto do escritor: Nelson Jonas
    Nelson Jonas
  • 25 de ago.
  • 5 min de leitura
Homem de capuz sentado diante de uma grande cidade, representando a reflexão sobre trabalho, produtividade, liberdade e o direito de viver além das exigências da vida produtiva.
O homem não nasceu para trabalhar. Nasceu para viver — e perceber que existe vida além da produtividade.

O homem não nasce para trabalhar. Nasce para viver. E viver é uma coisa muito maior do que produzir.


Trabalhar pode ser necessário. Pode ser digno. Pode ser uma escolha. Pode até ser uma forma de criação. O problema começa quando o trabalho deixa de ser uma parte da existência e passa a ocupar o lugar da própria existência.


Quando tudo aquilo que fazemos precisa justificar-se pela utilidade, pelo dinheiro ou pela produtividade, alguma coisa importante desaparece no caminho.


Desaparece a capacidade de simplesmente olhar.


Olhar para uma paisagem sem precisar fotografá-la para publicar.


Ouvir uma música sem transformá-la em conteúdo.


Pintar uma aquarela sem precisar vende-la.


Escrever uma letra de música sem precisar construir uma audiência.


Caminhar sem transformar a caminhada em exercício para atingir uma meta física definida por terceiros.


É nesse ponto que a figura do outsider ganha outro significado.


Ser outsider não é ser preguiçoso. Não é passar a vida sem fazer nada. E muito menos abandonar toda responsabilidade.


É questionar a ideia de que uma vida só possui valor quando está produzindo alguma coisa que possa ser medida pelo montante de dinheiro conseguido.

 

Existe uma forma de existência que não cabe facilmente em planilhas.


Contemplar.


Experimentar.


Criar.


Observar.


Aprender.


Perceber.


Essas atividades podem não gerar imediatamente dinheiro, status ou reconhecimento. Mas podem produzir algo que a lógica da produtividade raramente consegue medir: uma relação mais profunda com a própria experiência.


Pense em alguém diante de uma rua movimentada.


Para a maioria das pessoas, aquela rua é apenas um caminho entre dois pontos.

Mas o outsider começa a observar.


Percebe a maneira como a luz bate nas janelas.


O homem esperando o ônibus.


A mulher atravessando a rua com pressa.


O cobrador do ônibus perdido em seu celular.


O reflexo das pessoas no vidro de uma loja.


A arquitetura envelhecida e pixada de um prédio.


A chuva acumulada no asfalto.


Uma criança olhando para alguma coisa que os adultos não perceberam.


Nada disso apareceu naquele momento. Aquilo já estava ali. A diferença é que alguém finalmente percebeu e, perceber, é diferente de simplesmente enxergar.


Enxergar pode acontecer automaticamente.


Perceber exige presença.


É justamente por isso que a expressão artística pode ter uma função muito maior do que normalmente imaginamos.


Quando alguém fotografa, não está apenas apertando um botão. Está escolhendo onde colocar a atenção.


Quando pinta uma aquarela, precisa observar formas, proporções, contrastes entre luzes, sombras e relações.


Quando dança, precisa perceber o próprio corpo, o espaço e o ritmo.


Quando escreve, precisa selecionar palavras, organizar experiências e estabelecer relações entre coisas que antes pareciam separadas.


Quando toca uma gaita, precisa escutar, perceber a postura, a respiração, antecipar, corrigir e responder.


A expressão artística coloca a pessoa diante de uma exigência simples e profunda:

Prestar atenção. E talvez seja justamente isso que estamos perdendo.

Vivemos cercados por mecanismos construídos para capturar nossa atenção.


Notificações, vídeos curtos, publicidade, mensagens, alertas, recomendações e informações que chegam antes mesmo de termos decidido procurá-las.


Nossa atenção é constantemente puxada de um lugar para outro e, uma mente que está sempre sendo puxada, dificilmente consegue observar alguma coisa por muito tempo.


Ela reage, consome, passa para o próximo estímulo e depois para o seguinte, até que o mundo inteiro se transforma em uma sucessão de pequenas interrupções.


Nesse ambiente, parar de olhar automaticamente e começar a observar deliberadamente pode parecer uma coisa insignificante.


Não é.


É uma recuperação da própria atenção e, recuperar a atenção, significa recuperar uma parte da capacidade de escolher o que merece ser percebido.


A expressão artística pode funcionar como esse exercício.


Não porque todo mundo precise se tornar artista, mas porque criar alguma coisa obriga a mente a abandonar, pelo menos durante algum tempo, o papel de simples consumidora.


Quando você cria, precisa decidir.


  • O que colocar?

  • O que retirar?

  • O que destacar?

  • O que deixar escondido?

  • O que combina?

  • O que não combina?

  • O que essa experiência significa?


Essas escolhas desenvolvem uma relação diferente com aquilo que está diante de você.

Você deixa de apenas receber o mundo e começa a estabelecer relações com ele e, talvez seja aí, que apareça uma das funções mais interessantes da criação:


Ela modifica o olhar de quem cria.

Depois de fotografar durante algum tempo, você começa a perceber enquadramentos que antes ignorava.


Depois de pintar, começa a enxergar formas, nuances e proporções com mais atenção.


Depois de escrever, começa a perceber contradições, padrões e detalhes na própria experiência.


Depois de observar, começa a descobrir que aquilo que parecia banal talvez nunca tenha sido banal.


Era apenas algo que você ainda não havia aprendido a perceber.


É por isso que a expressão artística pode ser entendida também como um exercício de desenvolvimento humano.


  • Ela exige atenção.

  • Exige percepção.

  • Exige escolha.

  • Exige interpretação.

  • Exige revisão.

  • E exige uma relação constante entre aquilo que você percebe fora e aquilo que acontece dentro.


Você olha para alguma coisa e interpreta.


Interpreta e cria.


Cria e percebe novamente.


Depois percebe que a primeira interpretação estava incompleta.


Então modifica.


Esse movimento pode desenvolver uma capacidade importante: observar não apenas o mundo, mas também a própria maneira como você está observando o mundo.


É aí que entra a metacognição.


Não apenas pensar. Mas perceber como você pensa.


Não apenas sentir. Mas perceber como está interpretando aquilo que sente.


Não apenas olhar. Mas perceber o que sua atenção escolheu ignorar.


Isso muda a relação com a própria experiência.


E talvez seja esse o ponto em que a expressão artística deixa de ser apenas entretenimento. Ela se transforma em uma prática de presença.


Não precisamos romantizar isso.


A expressão artística não resolve automaticamente os problemas da vida. Não transforma qualquer pessoa em alguém mais lúcido. E criar não significa estar permanentemente consciente.


Mas existe algo concreto na prática:

ela nos obriga a prestar atenção.

E uma pessoa que aprende a prestar atenção começa a perceber coisas que antes passavam despercebidas. Inclusive dentro de si mesma.


Talvez, então, o verdadeiro oposto da produtividade não seja a preguiça.

Talvez seja a presença.


Porque uma pessoa pode passar doze horas produzindo e quase nenhuma delas realmente vivendo aquilo que está fazendo.


Também pode passar uma hora olhando para uma árvore, fotografando uma rua, tocando uma música ou escrevendo algumas linhas e, naquele intervalo, estar completamente presente.


A questão não é quanto foi produzido.


É quanto da experiência foi realmente percebido.


Ser outsider, nesse sentido, não significa fugir do mundo. Significa não aceitar que o único modo legítimo de existir seja produzir para alguém, vender alguma coisa, cumprir uma meta ou transformar cada experiência em resultado financeiro.


É recuperar o direito de:

  • criar sem finalidade imediata.

  • olhar sem pressa.

  • aprender sem transformar tudo em currículo.

  • experimentar sem transformar tudo em produto vendável.


Porque existe uma parte da vida que não precisa ser convertida em mercadoria para ter valor. E talvez seja justamente nessa parte que ainda exista espaço para aquilo que a produtividade não consegue fabricar:

um olhar próprio.

No fim, criar não é apenas colocar alguma coisa no mundo.


É descobrir o que acontece com você quando começa a olhar para o mundo de outra maneira.

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