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O AVESSO DO VIR-A-SER

  • Foto do escritor: Nelson Jonas
    Nelson Jonas
  • 27 de jun.
  • 2 min de leitura
Homem observando o movimento acelerado da cidade
Homem observando o movimento acelerado da cidade

O condicionamento é extremamente inteligente. Quando percebe que uma identidade perdeu força, não desaparece. Apenas cria outra.


Durante anos, nos ensinaram que deveríamos ser alguém. Ter um nome reconhecido, uma profissão admirada, uma história de sucesso. A vida virou uma corrida para construir uma imagem.


Então alguns percebem o vazio dessa corrida e é aí que começa uma armadilha ainda mais sofisticada.


A antiga identidade é abandonada, mas imediatamente surge outra. Agora o objetivo não é mais ser alguém. O novo ideal é ser ninguém.


Parece uma revolução. Não é.


Mas é apenas o vir-a-ser do avesso.


Antes havia o desejo de conquistar uma identidade. Agora existe o desejo de conquistar a ausência dela.


O pensamento continua funcionando exatamente da mesma maneira. Ele apenas mudou o destino da viagem.


O "eu importante" foi substituído pelo "eu desperto".


O "eu vencedor" deu lugar ao "eu sem ego".


O "eu especial" virou o "eu que transcendeu o especial".


Mas continua existindo um "eu" tentando alcançar alguma coisa.


Essa é a ilusão.


Enquanto houver um ideal psicológico, haverá comparação. Enquanto houver comparação, haverá tempo psicológico. Enquanto houver tempo psicológico, existirá a sensação de que falta alguma coisa.


É por isso que tantas pessoas passam décadas buscando desaparecer e, paradoxalmente, tornam-se cada vez mais identificadas com a imagem de quem desapareceu.


Elas falam sobre vazio.


Defendem o desapego.


Explicam a ausência do ego.


Mas basta alguém questionar suas crenças para que toda a estrutura reaja.


O ego não morreu.


Apenas trocou de linguagem.


O condicionamento espiritual costuma ser mais difícil de perceber justamente porque se apresenta como libertação.


Ele não diz "seja importante". Diz "abandone a importância".


Não diz "construa uma identidade". Diz "construa uma não identidade".


A direção muda. O mecanismo permanece intacto.


A verdadeira ruptura talvez comece quando até mesmo o desejo de deixar de ser alguém é visto como mais um movimento do pensamento.


Nesse instante, a busca perde sentido.


Não porque alguém finalmente se tornou ninguém.


Mas porque cessou, ainda que por um momento, a necessidade psicológica de se tornar qualquer coisa.


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