O ALTO CUSTO DO DECLÍNIO DO REPERTÓRIO CULTURAL


Li numa postagem de um conhecido o seguinte desabafo:
“O declínio do repertório cultural cobra um preço alto. Quando a leitura, a filosofia e a história são substituídas por maratonas de telas sem filtro, o pensamento crítico se esvazia. Estamos vendo surgir uma geração vulnerável à manipulação, que adota e defende ideias ultrapassadas sem entender suas reais origens ou consequências. Sem repertório, não há contestação; e sem contestação, o retrocesso vira norma.”
Fiquei pensando nisso porque acho que o problema é maior do que simplesmente dizer que as pessoas estão lendo menos.
A tela, por si só, não é o problema. Ela é apenas o meio. O que merece atenção é o espaço que ela passou a ocupar. Quando praticamente todo o tempo livre é preenchido por vídeos, notificações, opiniões, memes, notícias e estímulos sucessivos, o que vai ficando de fora?
Leitura. Reflexão. Conversas mais longas. História. Filosofia. E, principalmente, o contato com ideias que não entregam uma resposta em trinta segundos.
Um livro exige continuidade. Você precisa permanecer diante de uma ideia mesmo quando ela não é agradável, divertida ou fácil.
A filosofia exige suportar uma pergunta sem correr imediatamente para uma resposta.
A história exige contexto, comparação e alguma disposição para lidar com contradições.
A lógica da tela costuma ser outra.
Algo aparece, provoca uma reação e logo desaparece para dar lugar a outra coisa.
Depois outra. E outra.
Não acho que isso esteja necessariamente produzindo pessoas incapazes de pensar. Acho que o problema é mais difícil de perceber.
Estamos cercados por pessoas que têm acesso a uma quantidade absurda de informação, mas que nem sempre conseguem transformar essa informação em compreensão.
Porque informação não é repertório.
Repertório é outra coisa.
É conseguir estabelecer relações.
É olhar para uma ideia que apareceu hoje e perguntar de onde ela veio.
Quem já defendeu isso antes?
Em que contexto?
O que aconteceu quando algo parecido foi colocado em prática?
Quem ganhou com aquilo?
Quem perdeu?
O que está sendo deixado de fora da narrativa?
Sem essas perguntas, fica muito mais fácil aceitar a história que alguém decidiu contar.
E talvez seja justamente aí que o problema histórico apareça.
Quando uma sociedade perde o contato com a própria história, o passado não precisa desaparecer. Ele pode simplesmente voltar sem ser reconhecido.
Uma ideia antiga pode reaparecer com outro nome. Pode ser apresentada como defesa da ordem, da tradição, da segurança, dos valores ou como resposta necessária diante de uma ameaça.
A linguagem muda.
Os símbolos mudam.
A embalagem muda.
Mas determinados mecanismos continuam sendo os mesmos.
Quem não conhece a história olha para a embalagem e pode não perceber o que existe por trás dela. Por isso, conhecer história não serve apenas para saber o que aconteceu. Serve também para reconhecer quando alguma coisa que já aconteceu está tentando voltar.
E isso vale também para a maneira como discordamos.
Uma sociedade saudável não é uma sociedade em que todo mundo concorda. O problema não está na existência do conflito. O problema começa quando já não conseguimos discordar sem transformar o outro imediatamente em inimigo.
Quando o repertório diminui, a discussão vai ficando cada vez mais presa a slogans, identidades e reações.
A pergunta deixa de ser:
“Isso é verdadeiro?”
E começa a ser:
“Isso está do meu lado?”
Parece uma diferença pequena, mas não é.
Quando a pessoa decide primeiro de que lado uma ideia está e só depois decide se deve aceitá-la, o argumento deixa de ser examinado por aquilo que contém. Passa a ser julgado pela identidade de quem o apresenta.
É aí que a manipulação encontra um terreno muito mais fácil.
E ela nem sempre precisa esconder alguma coisa.
Às vezes basta mostrar apenas uma parte.
Uma frase sem contexto.
Uma estatística isolada.
Uma imagem capaz de provocar indignação.
Um acontecimento apresentado sem aquilo que veio antes.
Um inimigo conveniente para explicar problemas que, na realidade, possuem causas muito mais complexas.
A pessoa recebe conteúdo o dia inteiro e, por isso, sente que está informada.
Mas estar exposto a informação não significa compreender o que está acontecendo. É possível consumir milhares de fragmentos e continuar sem enxergar a relação entre eles.
E talvez esse seja um dos aspectos mais preocupantes de tudo isso.
Não estamos simplesmente diante de pessoas que sabem menos.
Estamos diante de uma cultura que pode estar perdendo o hábito de investigar.
E isso acontece justamente quando nunca tivemos tanto acesso ao conhecimento.
Nunca foi tão fácil encontrar livros, pesquisas, arquivos históricos, documentários, universidades e bibliotecas digitais.
Então o problema não é apenas acesso.
É atenção.
De um lado existe o conhecimento acumulado durante séculos, exigindo tempo, concentração, leitura e reflexão.
Do outro existem sistemas cada vez mais eficientes em descobrir o que prende nossa atenção e manter nossos olhos ali.
Essa disputa é desigual.
Porque conhecimento profundo exige que você permaneça.
A máquina de atenção precisa apenas que você continue olhando.
Talvez o conflito contemporâneo não seja simplesmente entre conhecimento e ignorância.
Seja entre profundidade e captura da atenção.
Uma pessoa pode passar horas diante de uma tela, consumir centenas de conteúdos e terminar o dia sem ter parado uma única vez para perguntar por que determinada coisa despertou sua indignação, por que aquele assunto apareceu para ela ou que visão de mundo está sendo construída pela repetição daqueles estímulos.
O problema não é apenas aquilo que vemos.
É também aquilo que deixamos de ver enquanto estamos ocupados olhando.
E talvez seja aí que o retrocesso se torne mais perigoso.
Não quando uma sociedade esquece completamente a história, mas quando perde a capacidade de reconhecer determinados mecanismos quando eles retornam com outra linguagem.
Não precisamos esquecer nossos erros para repeti-los.
Basta não reconhecê-los quando eles voltam.

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