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LAVAGEM CEREBRAL OU SHAMPOO MENTAL?

Foto do escritor: Nelson Jonas
Nelson Jonas
30 de set.
4 min de leitura
Homem sob água e espuma, com camadas semelhantes a escamas culturais se desprendendo da cabeça, simbolizando a limpeza do condicionamento mental pela observação passiva não reativa.
Nem toda lavagem é lavagem cerebral. Às vezes, é apenas a remoção das camadas que impediam você de enxergar o que já estava ali.

Tem gente dizendo que o conteúdo do nosso canal no youtube, é uma espécie de lavagem cerebral.


Curioso.


Porque, se observar passivamente os próprios pensamentos, medos, crenças, desejos, padrões e reações é lavagem cerebral, então talvez seja necessário perguntar antes:


o que exatamente está sendo lavado?
  • Uma ideia?

  • Uma crença?

  • Uma identidade?

  • Ou aquilo que foi acumulado durante anos sem nunca ter sido realmente examinado?


O nosso conteúdo não pede que ninguém abandone uma crença para adotar outra.


Não apresenta uma nova religião.


Não oferece uma nova ideologia.


Não pede submissão a um mestre.


Não exige fidelidade ao canal.


Não pede que ninguém acredite em nós.


Aliás, existe uma contradição que deveria ser bastante óbvia:


se o objetivo fosse produzir uma lavagem cerebral, seria bastante estranho ensinar alguém a observar criticamente aquilo que acontece dentro da própria cabeça.

Lavagem cerebral pressupõe, em sua forma clássica, mecanismos de controle.


A Observação Passiva Não Reativa aponta justamente para o contrário:


observe.

Não acredite.


Não rejeite.


Não siga.


Não combata.


Observe.


E veja o que acontece.


É aí que começa o desconforto.


Porque uma coisa é alguém dizer que determinada crença é falsa.


Outra coisa, muito mais perturbadora, é você começar a observar a maneira como a própria crença se sustenta.


De onde veio?


Quem ensinou?


Quando começou?


O que acontece quando alguém questiona?


Por que determinada opinião produz medo?


Por que determinadas ideias provocam raiva antes mesmo de serem examinadas?


Por que uma mudança de perspectiva pode ser percebida como uma ameaça à própria identidade?


Isso não é instalar um programa.


É observar o programa que já está funcionando.


Talvez seja exatamente isso que incomode.


A cultura passa anos colocando coisas dentro da cabeça humana e quase nunca é chamada de lavagem cerebral.


  • Família.

  • Escola.

  • Religião.

  • Política.

  • Publicidade.

  • Tradição.

  • Grupo social.

  • Algoritmos.

  • Mercado.

  • Costumes.

  • Medos coletivos.

  • Modelos de sucesso.

  • Modelos de fracasso.

  • Ideias sobre amor.

  • Ideias sobre dinheiro.

  • Ideias sobre status.

  • Ideias sobre quem você deveria ser.


Tudo isso pode participar da construção daquilo que posteriormente chamamos de “eu”.

E quase ninguém pergunta de onde veio esse eu.


Mas basta alguém começar a desmontar algumas dessas estruturas através da observação para aparecer a acusação:


“Lavagem cerebral!”

Talvez seja necessário inverter a pergunta.


E se aquilo que chamamos de personalidade já estiver profundamente condicionado?


E se grande parte daquilo que defendemos com tanta convicção não tiver sido escolhido, mas adquirido?


E se a cultura também produzir uma espécie de sujeira psicológica?


Não sujeira moral.


Não sujeira de caráter.


Acúmulo.


Camadas.


Resíduos.


Repetições.


Medos herdados.


Desejos fabricados.


Comparações.


Necessidades que foram ensinadas.


Valores incorporados tão cedo que passaram a parecer naturais.


É aqui que entra a metáfora do shampoo mental.


O shampoo não coloca um novo cabelo na sua cabeça.


Ele não decide qual corte você deve usar.


Não determina quem você deve ser.


Ele apenas entra em contato com aquilo que está acumulado.


E, quando usado corretamente, remove parte daquilo que já estava ali.


A Observação Passiva Não Reativa pretende operar nesse território.

Ela não diz: “Pense assim.”


Ela pergunta:

“Você consegue observar como está pensando?”

Não diz: “Abandone sua cultura.”


Pergunta:

“O que em você é realmente seu quando a cultura deixa de falar através de você?”

Não diz: “Destrua sua identidade.”


Pergunta:

“O que acontece quando a identidade é observada sem ser imediatamente defendida?”

Isso pode produzir desconforto.


Pode produzir medo.


Pode produzir resistência.


Mas resistência não prova lavagem cerebral.


Uma pessoa pode sentir desconforto simplesmente porque encontrou algo que preferia não olhar.


E existe uma diferença fundamental entre tirar uma conclusão por imposição e perceber alguma coisa por observação própria.


No primeiro caso, alguém quer controlar aquilo que você pensa.


No segundo, você começa a perceber como aquilo que pensa se constrói.


Essa diferença é decisiva.


Por isso, este canal não precisa que ninguém concorde com ele.


Na verdade, seria contraditório exigir isso.


Você pode assistir e continuar acreditando exatamente nas mesmas coisas.

Pode discordar.


Pode abandonar o canal.


Pode considerar tudo isso absurdo.


Pode inclusive dizer que a Observação Passiva Não Reativa é uma bobagem.

Nenhum problema.


A liberdade precisa incluir a possibilidade de rejeitar aquilo que está sendo apresentado.

O canal não deveria ser uma nova prisão.


Se alguém transforma nosso conteúdo em uma nova autoridade, alguma coisa fundamental foi perdida.


Porque o objetivo nunca foi substituir um condicionamento por outro.


É observar o condicionamento.

O shampoo não obriga ninguém a lavar a cabeça.


Quem prefere continuar com as mesmas crostas culturais, os mesmos resíduos psicológicos e as mesmas certezas herdadas está livre para fazê-lo.


Não existe condenação.


Não existe julgamento.


Não existe necessidade de conversão.


Mas existe uma coisa que talvez seja inevitável:

quando você começa a observar cuidadosamente aquilo que sempre chamou de “eu”, algumas escamas podem começar a cair.

E talvez seja justamente isso que algumas pessoas chamam de lavagem cerebral.


Não porque alguém tenha colocado alguma coisa nova dentro da cabeça.


Mas porque alguma coisa antiga começou a perder sua aparência de verdade absoluta.


E então surge o medo.


Não necessariamente medo de nós.


Medo do que pode existir quando aquilo que parecia sólido deixa de parecer sólido.


Talvez essa seja a questão que realmente mereça investigação:

se uma estrutura só permanece de pé porque ninguém pode observá-la sem medo, ela está sendo protegida pela verdade ou pelo condicionamento?

Nós não estamos aqui para responder por você.


Observe.


O resto é seu.


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